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Claudia rodou rodou rodou com o erro nas veias cheias de sangue ardendo. Se completava com o inesperado e poderoso vão. Estava livre e corria na selva como se estivesse fugindo do predador. Estava solta e sem correntes. Se eu quiser, fumo um cigarro, bebo meu vinho, tomo coca-cola. Sou tão meu corpo quanto sou minha alma aberta, desprotegida, ferida, amarga e solta. A alma é tão pura que sente culpa do corpo. E como é cruel o vão que se cria. E porque se cria e se sofre se tudo é junto? Sou essa. Quero ser o limite do que sou, só pra variar.
Ai... quero... como quero ser tanto e tanto. Comer o mundo com as mãos já disse algum poeta. Devorar a alma do mundo. Sugar todo o vento bravo que sopra as mudanças. Ser louca desvairada da vida. Ser descompensada. Testar o centro como se treina para uma pirueta. Irão voar, tudo bem, deixe o chão. Voando é que se percebe. E voar não é como correr. Pé ante pé se impulsiona os músculos que fazem correr e voar sobre o chão. Não tenho asas. Só voo com o pensamento.
E sinto ser fraca e tão fraca para resistir e às vezes sou tão forte e nada me abala, nada me fere. Fortaleza de mentira que se transforma em realidade pela fé em conseguir resistir. E ser selvagem, natural, humana em carne viva é tão libertador quanto a iluminação. É como se explica aquele homem ter escrito um livro sobre a iluminação no momento em que estava pensando em se matar. Ter o controle. A Laranja Mecânica não é tão mecânica assim. Sei exatamente o que faço. Sei também o peso da culpa que carrego com atitudes mundanas e consideradas pequenas e fúteis para os quase divinos. Ser divino é tão mágico quanto ser humano. E sentir amor. Como é inevitável sentir amor, é inevitável sentir ciúmes, inveja, egoísmo. E tudo isso é amor também? Já que uma vez me disseram que tudo era amor. Deve ter sido uma amiga chapada ou alguém que estava feliz por algum motivo. Ou será que foi Jesus? Mas se tudo acaba mesmo em amor, porque a discussão? Me deixem ser livre e errar! O bom do Mundo é que ele é feito pra isso... Não me tirem a oportunidade de provar o gosto do erro e de vomitar depois até... Mas como posso ser divina, acerto, sucesso, luz, sem a droga e o vício e o descompasso infeliz do erro? Se o erro não fosse assim chamado acho até que ele seria uma coisa boa.
E Claudia continuou a correr e a rodar a correr e a rodar a correr e a rodar.
Ela estava de preto e ria alto, muito alto. Não podia parar e não pararia até que o peso a puxasse para baixo e ela não teria mais forças em suas pernas com músculos não treinados para correr tanto, seu coração pediria uma pausa pois seria demasiado acelerado o ritmo da corrida, seu suor a deixaria constrangida, o riso já estaria forçado, sua garganta iria doer de tanto ar que entrava, sua sede a congelaria pois teria que parar, e então ela finalmente perceberia que ser humana também requer cuidados e pausas e silêncios e recomposição. E então ela voltaria com a memória da corrida cravada na carne.
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