“Desabrochando num campo de sonhos azuis Formando cor e beleza com presença de luz Ânsia de um tempo lento Pressa de se mostrar inteira Beira as águas da loucura Pura, tornando-se ela e uma”
Trabalhei no Criança Esperança deste ano e foi uma experiência e tanto! Meninas com patins, dançarinos em cadeiras de rodas, gente pintada de tinta, carros imensos, atores e atrizes famosos, Didi, Dedé (foi interessante perceber minha emoção ao vê-los!!!), cantores incríveis, crianças mil, dois diretores ótimos que diziam ao microfone para milhares de pessoas as suas funções dentro da engrenagem do show e uma trupe teatral muito louca, que tive o prazer de fazer parte, apresentando toda a obra imensa para um público de 3000 pessoas no local! (não sei quantas pessoas assistiram em suas casas...) Nunca havia vivido algo assim! Um trabalho inusitado e cheio de pérolas para quem quer aprender! Humildade, amor e muita dedicação foram as palavras-chave!
O ator precisa saber valorizar seu colega, saber olhar seu colega, saber atuar com seu colega, dançar junto. Senão seu brilho não é nada além, é apenas uma aparição imatura e egoísta que não quer dizer nada.
Foi um prazer conhecer pessoas tão diferentes e saber como é a feitura de um show desses em que dependemos tanto um do outro. Tudo deveria ser assim...
Abrindo o jornal só vejo desastres e violência. Se nos incentivam a desistir, quero mais é contariar como posso. Então, na contra-mão da massa de notícias sobre assassinatos e atos de selvageria humana, deixo aqui um gesto de carinho de uma criança para motivar a fé e o amor a serem sempre os sentimentos mais poderosas do ser humano. Vamos em frente, vamos melhores! Sempre!
Pelas vielas do Humaitá, revelações me são dadas de lambuja. Uma palestra intitulada “Literatura e Psicanálise” que mais parecia feita de bló bló bló pois é, porque a psicanálise é... Acontece para revelar um palestrante genial, a cima de tudo porque é verdadeiramente artista. E este é o protagonista, apontador do que pode se realizar na forma escrita, sendo que tudo que existia antes era e sempre fora a psicologia da arte. Ele nos leu um texto de Machado de Assis chamado “O Cônego ou Metafísica do Estilo”. Sempre o considerei excepcional, mas nunca soube que este artista podia ir tão fundo na emoção de alguém, a ponto de nos revelar as entranhas do pensamento humano com movimentos literários fascinantes e próximos. Conheci realmente a penetrante literatura de Machado lá, na palestra do gênio. E o gênio me impressionou com todas as suas observações e suspiros muito bem colocados e estruturados pela cama da nossa língua. Sua voz tinha a música do saber e seus olhos brilhavam contemplação. Aprendi a poesia e o movimento que a literatura pode ter, se imbuída do sentimento e do raciocínio completos de um ser humano. Silvio procura Silvia desesperadamente e o nosso consciente procura pelo nosso inconsciente como se fossem almas-gêmeas. Machado retrata o processo criativo de um cônego que escreve um sermão da maneira mais bonita que já pude ouvir, porque não li, ouvi. O leitor faz parte da narrativa, é incluído em cada passagem e aproxima o narrador. E o texto ser lido por um gênio, um homem da psicologia e da música, da filosofia e da arte, ele, aumentou meu encantamento por um texto que já era perfeito e que ele conseguiu deixá-lo ainda mais especial e indispensável. Os ouvintes cheiravam a naftalina e o lugar tinha um carpete empoeirado e cadeiras apertadas, isso para não falar da barata morta que deitava de barriga para cima no chão em baixo da cadeira a meu lado. O gênio olhava para mim e para uma senhora bem senhora com uma sutil diferença na forma de falar e de olhar. Senti-me privilegiada. O nome do leitor/gênio: José Miguel Wisnik.
Eis que lá estava eu, descendo a ruela sem saída, depois de um êxtase completo, imaginando se as palavras de Machado eram veramente humanas ou se compactuavam com um mágico sentido infinitesimal de profundo saber que prefacia o presente de todos os dias, revelando-nos, dessa forma, um texto literário que nos faz sentir as palavras além do meramente contextual. (O texto de Machado de Assis no Leia Mais)
Faz algum tempo que não atualizo o blog. A questão para quem tem um espaço para se manifestar é sempre esta. Atualizar sempre ou só quando é conveniente? Na verdade verdadeira eu nem sei se tenho leitores. Sei que alguns amigos passam por aqui para deixar comentários em um ou outro artigo e o indicador de visitantes, ora ou outra aparece com um número 3, 4, 1. Então acho que sempre tem alguém xeretando por aqui, mas leitores meeesmo, daqueles que olham todo dia, nem eu mesma! Eu sempre escrevo para um público e para gerar sementinhas de pensamento naqueles que me lêem, mas também escrevo para mim, meu desenvolvimento, estimulando o pensamento. Realmente não sei se tem alguém que vem sempre por aqui. Aliás, o anonimato da internet é válido para um escritor, nunca sabendo quem o lê, mas podendo sempre atualizar ou deletar aquilo que é "publicado". Um professor meu me disse que os autores de blogs estão querendo publicar livros de verdade, como eles mesmo dizem, pois o blog é um espaço fictício de manifestação que qualquer pessoa pode fazer, não dando o reconhecimento necessário para aquele que quer ser um escritor, propriamente dito. O reconhecimento ainda é o objetivo de muitos e muitos escritores e artistas. Não estou dizendo que não quero ser reconhecida por minha escrita, mas tenho muito chão pela frente para que eu mesma me reconheça e sei que estou certa disso. Faço parte de uma geração, onde a televisão já imperava na minha infância. Sobrando pouco tempo para a leitura. Comecei a ler de verdade, sem que me obrigassem, tem uns seis anos. Como posso ser escritora com apenas seis anos de leitura de verdade? Digo leitura de verdade porque trata-se de uma busca pelo que eu quero saber, já que a nossa sabedoria, inteligência e memória são limitadas, não dá para saber tudo. Mas a leitura que selecionamos dentre todas do Mundo é uma leitura em busca da nossa verdade de pensamento. Mas posso ser autora e mentora de idéias próprias com tão pouco conhecimento? Espero que eu não tenha que esperar muito. Quanto mais se vive, mais livros antigos e novos existem e mais informação é gerada na Terra. Ficaria louca se tivesse que aprender tudo que me interessa. Leria dois livros por dia e, mesmo assim, não daria conta. Ficaria uma obesa mórbida inteligente. Acho que não gostaria disso. A questão é que eu quero aprender as coisas. Então, no meu tempo, eu comecei a ler filosofia, espiritualidade, misticismo e junto com isso também as histórias de amor de Clarice Lispector e poemas de Fernando Pessoa e romances de Hermann Hesse e livros de mitologia e tudo e tals. Os temas de um puxavam os temas de outros, como tudo na nossa vida. Mas no final das contas eu sempre quis saber de algo muito particular, algo que mudasse minha forma de ver as coisas, como Clarice faz muito bem em seus livros. Não se deve ler para ter do que falar em rodinhas de intelectuais, ou para não pensar o seu próprio pensamento. Achei graça nesta observação de Schopenhauer que inclusive, li ontem: “A mais rica biblioteca, quando desorganizada, não é tão proveitosa quanto uma bastante modesta, mas bem ordenada. Da mesma maneira, uma grande quantidade de conhecimentos, quando não foi elaborada por um pensamento próprio, tem muito menos valor do que uma quantidade bem mais limitada, que, no entanto, foi devidamente assimilada.” Ando numa necessidade de estudo que está me consumindo, mas realmente, se não assimilamos nossas leituras para nosso próprio uso intelectual, moral ou espiritual, qual a verdadeira razão para se ter sabedoria? Para o reconhecimento, o aplauso dos eruditos? É nesse ponto que eu não concordo com o objetivo de ler para ser reconhecido. Ser o estudioso, o intelectual, ser aquele que nem sabe o que pensa de tanto que decora o que os outros pensam. O limite está na importância que se dá ao seu próprio pensamento, pois também um ser pensante precisa de estímulos e estes estão nos livros! Agora cabe a nós sabermos administrar nossa condição de filósofos para não correr o risco de sermos alienados ou prepotentes. (continua só mais um pouquinho no Leia Mais)